Dialeto público-administrativo
Quando não me irrito, me divirto com os neologismos do serviço público. Toda repartição pública tem seus jargões. Assim, igual a gangue. Alguns são gerais da categoria, como "gestionar": "Temos que gestionar junto às prefeituras" ou "Vou ali no bloco K gestionar junto à equipe de aprovação de projetos". Tem os excessos excessivamente excessivos, tipo "Ah, então tá. Vou ali gestionar com o protocolo." Deu pra entender o que é "gestionar"? É conversar, acertar posições. Afe.
Tem os adjetivos preferidos também, claro. Como o tal do "pró-ativo". Sei que não é coisa exclusiva da administração pública, mas se apropriaram bem da coisa. Odeio esse papo de ser "pró-ativo". Ser pró-ativo é simplesmente não ser lambão e fazer o que tem que fazer, sem ficar pentelhando chefe por qualquer mudança de regência verbal no memorando. Pra quê o "pró", por sinal? Bastaria "ativo", não?
As particularidades de cada repartição pública são notáveis. No meu trabalho anterior os "gestores" (i.e. qualquer um) gostavam de inventar sufixos para além do significado da palavra. Como "culturalidade": "a aplicação da política pública para segmentos etnico-racias deve respeitar a culturalidade". Hein? Já não existe o substantivo CULTURA? E a tal "potencialidade"? "Deve-se levar em conta a potencialidade daquela comunidade". Ai, cacofônico, cafônico, doente. Conheço um termo no dicionário: Potencial. Pra quê mais que isso? Ah, é porque há mais poesia entre uma baia e outra do que imagina nossa vã objetividade.
Mas essa última, recente, fresquinha, surgida no seio desse meu emprego, é que mais me mata de vergonha: "Matricular-se". É assim: "Ah, o banco tal tem uma nova linha de crédito? Vou me matricular e informo os parceiros". Ou "Ah, você está com a mãe doente, né? Já estou matriculada nessa questão". É. "Matricular-se em algo" quer dizer "Informar-se de algo".
Bão mesmo é quando resolvem falar bonito:
"Vou estar me matriculando do assunto e torno a te ligar."
Afe.