
Não escrevi aqui, mas, há aproximadamente um mês, pedi demissão. Ah, coisa interessante. Foi a primeira vez na minha vida em tomei uma decisão assim, tão, uau, séria. Porque sempre foi tudo meio no automático: nascer, crescer, estudar, passar no vestibular, fazer faculdade, estudar mais, trabalhar com o primeiro contrato que pintou, essas coisas. Até o casamento caiu no meu colo, não pensei muito na coisa e tal. Daí, acaba contrato, começa contrato e, numa dessas, fui parar nesse tal lugar bisonho do qual tanto me queixo. Surreal desde o primeiro dia. Deixa os detalhes pra lá. O fato é que me aborreceram tanto que decidi que não, não, não, não quero me submter àquilo. Daí que pedi demissão. Pedi demissão no dia em que vieram me cobrar uma xaropada de horário - mas isso vai ficar pra outra hora também. O lance é que as pessoas, de um modo geral, adoecem, se aborrecem, endurecem por causa de trabalho, mas jamais se demitem. Eu sei que parece uma afronta sair dichavando trabalho num país com a taxa de desemprego medonha como o nosso. Porque aqui se pode ser fédaputa, nepotista-doméstico (ou seja, os que não empregam parentes, só amiguinhos, cumpadi e cumadi), mas não pode mandar o emprego se foder. Daí que, desde que pedi demissão, passaram a me tratar suuuper bem. Tipo "é doidinha, tadinha". Como se nunca tivessem me ouvido resmungar e pedir, diuturnamente, que me mudassem de área. Porque trabalhar com la vache era demais para meus pulmões, para meus rins, para minhas unhas e para meu hipotálamo. Tipo ficaram "surpresos". Ah, catar coquinho! Mas é que a funcionária padrão aqui nunca quis ser funcionária padrão. Não se candidatou à vaga para sê-lo. E acho que dono do meu trabalho sou eu, não o sistema e tal e coisa. Mas o impressionante é isso: você se demite e as pessoas ficam meiguinhas. Deve ser por medo. Porque são tão enquadrados, os pobres, que acham mooito absurdo você simplesmente se negar a aceitar qualquer tipo de tarefinha mongol por grana. Afe. E a curiosidade? Nooossa, é um tal de perguntar "pra onde você vai?", "Já arrumou alguma coisa?", "...e consultoria...?" que até me diverte. Enfim, uma merde. Daí que hoje não aguentei e abri mão dos meus últimos dois dias de aviso prévio. Procê ver o níver de desespero.